
O autor é Rui Teixeira e faz parte dos milhares de retornados como eu, aqueles que engrossaram a população portuguesa na década de 70 trazendo agora os seus testemunhos para a História.

Rui Oscar da Silva Teixeira
Nascido a 3 de Outubro de 1965 em Porto Amboim, Angola. É o mais velho de quatro irmãos (um irmão mais velho morreu ainda o autor não tinha completado o primeiro ano de vida). Fez o ensino primário na Escola Primária de Bailundo, tendo saído de Angola no grande êxodo que levou milhares de portugueses e angolanos a atravessar aquele país em direcção à Africa do Sul, em Agosto de 1975. Conheceu a realidade dos campos de refugiados antes de ser repatriado para Portugal em Outubro do mesmo ano.
Residiu um ano em Sesimbra antes de se mudar para Lisboa, onde completou o 11.º ano de escolaridade e frequentou o 12.º. Em 1984 ingressou na Força Aérea Portuguesa como especialista de Polícia Aérea. Residiu na capital até 1992, ano em que, já casado, se mudou para Alenquer, transferindo-se para Beja, onde reside actualmente, em 1996.
Ao longo da sua vida foi escuteiro, fez desporto, dedicou-se à cinotecnia e à canicultura, manteve actividade associativa em colectividades tão diversas como associações culturais e associações de pais tendo, nesse contexto, visto publicados alguns textos seus. É coralista no Coro do Carmo de Beja.
A adesão ao processo RVCC foi o pretexto para o seu primeiro livro. O autor não se assume como um escritor, antes como alguém que tem histórias para contar e que escreveu um livro. É casado e tem um filho.
"A certa altura passámos por um homem, o negro da tez em profundo contraste com a cabeleira alva, olhar perdido como se, através da enorme e multicolor serpente de carros, pudesse vislumbrar outras migrações. Imóvel, encostado a uma velha pasteleira, era a testemunha improvável deste povo que, abandonando a terra prometida, onde corria leite e mel, se lançava ao deserto, para quarenta dias ou quarenta horas de provação, não o sabia decerto o velho, nem tão pouco os integrantes da caravana (...) A caravana passou, o velho ficou, não sei se lá estaria mesmo alguém ou se era apenas África a despedir-se dizendo: vai, não olhes para trás, não voltarás mas nunca me deixarás, esse é o teu legado, a tua herança, a tua maldição."
"Um dia, entrei na tenda procurando meus irmãos, a família estava toda reunida em volta da mesa, alguns amigos também. Cantaram-me os parabéns e acenderam dez velas espetadas num bolo trazido do exterior por mão amiga. Havia biscoitos e laranjada. E eu chorei, o medo e a raiva, tanto tempo reprimidos, corriam agora livre e incontroladamente, com sabor mais amargo que salgado, o camaleão não conseguia mudar de cor e, o que era pior, não sabia se esta que trazia era a original. Não seria, nunca mais conseguiria reproduzir a cor original, nem ele nem todos os miúdos e graúdos que deixaram farrapos de alma espalhados pelo tempo e pela distância consumidos em direcção a lugar algum. (...) Sete dias depois aterrávamos na Portela, pisávamos, pela primeira vez em toda a nossa vida, o solo sagrado da Capital do Império, retornados, nos chamaram."
O percurso de uma vida, e de outras que com ela se cruzam, ao longo de uma trintena de anos. Um percurso que começa em Angola, passa pelo processo de descolonização e pela adaptação a uma nova vida, marcada pela procura constante de se encontrar em si e nos outros.
Fica aqui um pouco do livro para vos aguçar a curiosidade.
Fontes:
http://www.wook.pt/ficha/camaleao/a/id/14086078
http://www.chiadoeditora.com/index.php?page=shop.product_details&category_id=0&flypage=flypage.tpl&product_id=770&option=com_virtuemart&Itemid=&vmcchk=1&Itemid=1
http://ruiteixeira.portaldaliteratura.com/pt/os-livros-de-ruiteixeira/camaleao-uma-historia-de-vida

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