sexta-feira, 8 de novembro de 2013

"A Lua"- Jacob e Wilhelm Grimm


"A Lua"- Jacob e Wilhelm Grimm


Irmãos Grimm
          Em tempos que já lá vão havia uma terra onde a noite era sempre escura e o céu estendia-se sobre ela como um lenço negro, pois ali a Lua nunca subia e nenhuma estrela piscava na escuridão. Na altura da criação do mundo, a luz da noite era suficiente. Uma vez, saíram desta terra em peregrinação quatro rapazes e chegaram a um outro reino onde, quando à noite o Sol desaparecia atrás dos montes, havia uma esfera brilhante pendurada num carvalho, que deitava uma luz suave em todas as direções. Devido a ela, era possível ver e distinguir tudo muito bem, embora não fosse uma luz tão forte como a do Sol. Os rapazes pararam e perguntaram a um lavrador, que passava por ali com o seu carro, que luz era aquela. “Aquilo é a Lua”, respondeu ele, “o nosso prefeito comprou-a por três moedas e pendurou-a no carvalho. Tem de lhe deitar óleo todos os dias e mantê-la limpa, para que ela não deixe de brilhar. Por isso, pagamos-lhe uma moeda por semana.”
Assim que o lavrador partiu, disse um deles: “Esta lanterna fazia-nos jeito, também lá temos um carvalho, tão alto como este, onde a podemos pendurar. Que grande alegria deixar de tropeçar na escuridão!” “Sabem que mais?”, disse o segundo, “precisamos de arranjar um carro e um cavalo e levar a Lua embora. As pessoas daqui bem podem comprar uma outra.” “Eu trepo com muita facilidade”, disse o terceiro, “trago-a já para baixo!” O quarto trouxe um carro e um cavalo e o terceiro trepou pela árvore acima, fez um buraco na Lua, passou-lhe um fio e fê-la descer. Assim que a Lua brilhante ficou dentro do carro, deitaram-lhe um lenço por cima, para que ninguém se apercebesse do roubo. Levaram-na sem problemas para a sua terra e penduraram-na num carvalho. Velhos e novos alegraram-se, quando a nova lanterna começou a estender a sua luz sobre os campos e os quartos e salas se encheram dela. Os anões saíram dos seus buracos nas rochas e os pequenos elfos, com os seus casacos vermelhos, faziam rodas nos prados.
Os quatro rapazes tratavam da Lua com óleo, limpavam a mecha e recebiam a sua moeda semanal. No entanto, envelheceram e quando um deles adoeceu e se apercebeu de que a morte estava próxima, ordenou que o quarto de lua que lhe pertencia fosse levado com ele para a sepultura. Quando morreu, o prefeito trepou à árvore e, com a tesoura da poda, cortou um quarto da Lua que meteu no caixão. A luz da Lua diminuiu, mas não muito. Quando morreu o segundo, foi-lhe dado o segundo quarto e a luz minguou. Mais fraca ficou ainda quando morreu o terceiro, que também levou o seu quarto e, quando o quarto homem foi sepultado, instalou-se de novo a velha escuridão. Sempre que as pessoas saíam à noite sem lanterna, batiam com as cabeças umas nas outras.
         Porém, assim que os quartos da Lua se juntaram no inferno, os mortos, habituados à escuridão, agitaram-se e acordaram do seu sono. Ficaram espantados por poderem ver de novo: a luz da Lua chegava-lhes bem, pois os seus olhos estavam tão fracos que não teriam podido suportar a luz dos Sol. Ergueram-se, alegraram-se e retomaram os seus hábitos de vida. Alguns deles dedicaram-se ao jogo e à dança, outros foram para as tabernas onde pediram vinho, embriagaram-se, vociferaram e lutaram e, por fim, pegaram em cacetes e bateram uns nos outros. O barulho era cada vez maior até que, por fim, chegou ao céu.
         São Pedro, que guarda as portas do céu, calculou que o inferno se tinha revoltado e chamou as hostes celestes, que lutavam contra o maligno, porque este e os seus associados pretendiam assolar a morada dos abençoados. Como, porém, elas não vinham, São Pedro montou no seu cavalo, atravessou as portas do céu e foi ao inferno. Aí sossegou os mortos, fê-los voltar de novo à sepultura e levou com ele a Lua, pendurando-a no céu.


Fontes:
http://comunidade.sol.pt/blogs/olindagil/archive/2012/06/23/Os-Contos-dos-Irm_E300_os-Grimm.aspx

http://textosintegrais.blogspot.pt/2011/06/lua-jacob-e-wilhelm-grimm.html

Um Conto de Natal de Sophia de Mello Breyner


O amigo
Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à volta. No jardim havia tílias, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos.  Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões.
Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas. Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim.
E  Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha.

Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro.
Joana estava encarrapitada no muro. E passou pela rua um garoto. Estava todo vestido de remendos e os seus olhos brilhavam como duas estrelas. Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo às folhas do Outono. O coração de Joana deu um pulo na garganta.
- Ah! – disse ela.
E pensou:
“Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.” E do alto do muro chamou-o:
- Bom dia!
O garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu:
- Bom dia!
Ficaram os dois um momento calados. Depois Joana perguntou:
- Como é que te chamas?
- Manuel – respondeu o garoto.
- Eu chamo-me Joana.
E de novo entre os dois, leve e aéreo, passou um silêncio. Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma quinta.
Até que o garoto disse:
 - O teu jardim é muito bonito.
- É, vem ver.
Joana desceu do muro e foi abrir o portão.
E foram os dois pelo jardim fora. O rapazinho olhava uma por uma cada coisa. Joana mostrou-lhe o tanque e os peixes vermelhos. Mostrou-lhe o pomar, as laranjeiras e a horta. E chamou os cães para ele os conhecer. E mostrou-lhe a casa da lenha onde dormia um gato. E mostrou-lhe todas as árvores e as relvas e as flores.
- É lindo, é lindo – dizia o rapazinho gravemente.
- Aqui – disse Joana – é o cedro. É aqui que eu brinco. E sentaram-se sob a sombra redonda do cedro.
A luz da manhã rodeava o jardim: tudo estava cheio de paz e de frescura. Às vezes do alto de uma tília caía uma folha amarela que dava voltas no ar.
Joana foi buscar pedras, paus e musgo e começaram os dois a construir a casa do rei dos anões.
Brincaram assim durante muito tempo. Até que ao longe apitou uma fábrica.
- Meio-dia – disse o garoto -, tenho de me ir embora.
- Onde é que tu moras?
- Além nos pinhais.
- É lá a tua casa?
- É, mas não é bem uma casa.
- Então?
- O meu pai está no céu. Por isso somos muito pobres. A minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma casa.
- Mas à noite onde é que dormes?
- O dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem uma vaca e um burro. E por esmola dá-me licença de dormir ali também.
- E onde é que brincas?
- Brinco em toda a parte. Dantes morávamos no centro da cidade e eu brincava no passeio e nas valetas. Brincava com latas vazias, com jornais velhos, com trapos e com pedras. Agora brinco no pinhal e na estrada. Brinco com as ervas, com os animais e com as flores. Pode-se brincar em toda a parte.
- Mas eu não posso sair deste jardim. Volta amanhã para brincar comigo.
E daí em diante todas as manhãs o rapazinho passava pela rua. Joana esperava-o empoleirada em cima do muro.
Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra redonda do cedro. E foi assim que Joana encontrou um amigo.
Era um amigo maravilhoso. As flores voltavam as suas corolas quando ele passava, a luz era mais brilhante em seu redor e os pássaros vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de pão que Joana ia buscar à cozinha.

A festa
Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que chegou o Natal.
E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto e desceu a escada.
Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam os copos.
Os copos passavam a sua vida fechados dentro de um grande armário de madeira escura que estava no meio do corredor. Esse armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma grande chave. Lá dentro havia sombras e brilhos. Era como o interior de uma taverna cheia de maravilhas e segredos. Estavam lá fechadas muitas coisas, coisas que não eram precisas para a vida de todos os dias, coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças, frascos, caixas, cristais e pássaros de vidro. Até havia um prato com três maçãs de cera e uma menina de prata que era uma campainha. E também um grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas.
Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. Não tinha licença de o abrir. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse espreitar entre as duas portas.
Nos dias de festa, do fundo das sombras do interior do armário saíam os copos. Saíam claros, transparentes e brilhantes, tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a tilintar era a música das festas.
Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário.
As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma festa.
Era o Natal.
Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes.
Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das cerejeiras tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos.
E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras do que tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas coisas brilhantes: velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas.
Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava em nada. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e luminoso, sem nenhuma sombra.
Depois voltou para casa e fechou a porta.
- Ainda falta muito tempo para o jantar? – perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o corredor.
- Ainda falta um bocadinho, menina – disse a criada.
Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira Gertrudes, que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia.
A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os dois perus de Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.
- Gertrudes, ouve uma coisa -  disse Joana.
A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus.
- O que é? – perguntou ela.
- Que presentes é que achas que eu vou ter?
- Não sei – disse Gertrudes -, não posso adivinhar.
Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas.
- E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?
- Qual amigo? – disse a cozinheira.
- O Manuel.
- O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns
- Não vai ter presentes nenhuns?
- Não – disse a Gertrudes abanando a cabeça.
- Mas porquê, Gertrudes?
- Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.
- Isso não pode ser, Gertrudes.
- Mas é assim mesmo – disse a Gertrudes fechando a tampa do forno.
 Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era “assim mesmo”.
Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar.
Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens.
Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha.
De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse:
- Já chegaram os primos.
Então Joana foi ter com os primos. Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa.
Tinha começado a festa do Natal.
Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas às outras: “Bom Natal”. Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Jiana pensava:
- Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes.
E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.
O jantar do Natal era igual ao de todos os anos. Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananases. No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala.
As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.
Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore de Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez.
Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
E no presépio figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Joana olhava, olhava, olhava.
Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel. Um dos primos puxou-a por um braço.
- Joana, ali estão os teus presentes.
Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas. À sua volta todos riam e conversavam.
Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, falando ao mesmo tempo.
E Joana pensava:
- Talvez o Manuel tenha tido um automóvel.
E a festa do Natal continuava.
As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar.
Até que alguém disse:
- São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são horas das crianças se irem deitar.
Então as pessoas começaram a sair.
O pai e a mãe da Joana também saíram.
- Boa noite, minha querida. Bom Natal – disseram eles.
E a porta fechou-se.
Daí a um instante saíram as criadas.
A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos para a Missa do Galo, menos a velha Gertrudes, que estava na cozinha a arrumar as panelas.
E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes.
- Bom Natal, Gertrudes – disse Joana.
- Bom Natal – respondeu a Gertrudes.
Joana calou-se um momento. Depois perguntou:
- Gertrudes, aquilo que me disseste antes do jantar é verdade?
- O que é que eu disse?
- Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes.
- Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve presentes nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são os pobres. Têm a pobreza.
- Mas então o Natal dele como foi?
- Foi como nos outros dias.
- E como é nos outros dias?
- Uma sopa e um bocado de pão.
- Gertrudes, isso é verdade?
- Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite.
- Boa noite – disse Joana. E saiu da cozinha.
Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:
- Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que eu queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada.
E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.
“Que frio lá deve estar!”, pensava ela.
“Que escuro lá deve estar!”, pensava ela.
“Que triste lá deve estar!”, pensava.
E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde Manuel dormia em cima de palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.
- Amanhã vou dar-lhe os meus presentes - disse ela.
Depois suspirou e pensou:
“Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.”
Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal.
 Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite.
“Hoje”, pensou Joana, “tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.”
Foi ao armário, tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.
Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a ouviu.
Na sala de jantar havia uma porta que dava para o jardim. Joana abriu-a e saiu, deixando-a ficar só fechada no trinco.
Depois atravessou o jardim. O Alex e a Chiribita ladraram.
- Sou eu, sou eu – disse Joana.
E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se.
Então Joana abriu a porta do jardim e saiu.
A estrela
Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás. As árvores pareciam enormes e os seus ramos sem folhas enchiam o céu de desenhos iguais a pássaros fantásticos. E a rua parecia viva. Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém. Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, dentro dos seus jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam pessoas, só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a olhavam e a ouviam como pessoas.
“Tenho medo”, pensou ela. Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada.
Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu a um atalho entre dois muros. E no fim do atalho encontrou os campos, planos e desertos. Ali, sem muros nem árvores nem casas, a noite via-se melhor. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante. O silêncio era tão forte que parecia cantar. Muito ao longe via-se a massa escura dos pinhais.
“Será possível que eu chegue até lá?”, pensou Joana. Mas continuou a caminhar.
Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. Ali no descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara como uma faca.
“Tenho frio”, pensou Joana. Mas continuou a caminhar.
À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia-se tornando maior. Até que ficou enorme.
Joana parou um instante no meio dos campos.
“Para que lado ficará a cabana?”, pensou ela.
E olhava em todas as direcções à procura dum rasto.
Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia rasto e à sua frente não havia rasto.
 “Como é que hei-de encontrar o caminho?”, perguntava ela.
E levantou a cabeça.
Então viu que no céu, lentamente, uma estrela caminhava. “Esta estrela parece um amigo”, pensou ela.
E começou a seguir a estrela.
Até que penetrou no pinhal. Então num instante as sombras fizeram uma roda à sua volta. Eram enormes, verdes, roxas, pretas e azuis, e dançavam com grandes gestos. E a brisa passava entre as agulhas dos pinheiros, que pareciam murmurar frases incompreensíveis. E vendo-se assim rodeada de vozes e de sombras Joana teve medo e quis fugir. Mas viu que no céu, muito alto, para além de todas as sombras, a estrela continuava a caminhar. E seguiu a estrela.
Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos.
“Será um lobo?”, pensou.
Parou a escutar. O barulho dos passos aproximava-se. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha caminhando ao seu encontro.
“Será um ladrão?”, pensou
Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes.
- Boa noite – disse Joana.
- Boa noite – disse o rei – Como te chamas?
- Eu, Joana – disse ela.
- Eu chamo-me Melchior – disse o rei.
E perguntou:
- Onde vais sozinha a esta hora da noite?
- Vou com a estrela – disse ela.
- Também eu – disse o rei -, também eu vou com a estrela.
E juntos seguiram através do pinhal.
E de novo Joana ouviu passos. E um vulto surgiu entre as sombras da noite.
Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras.
- Boa noite – disse ela -. Chamo-me Joana e vou com a estrela.
- Também eu – disse o rei -, também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar.
E seguiram juntos através dos pinhais.
E mais uma vez Joana ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis e os pinheiros escuros.
Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado a pérolas. A sua cara era preta.
- Boa noite – disse ela. – O meu nome é Joana. E vamos com a estrela.
- Também eu – disse o rei – caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar.
E juntos seguiram os quatro através da noite.
No chão os galhos secos estalavam sob os passos, a brisa murmurava entre as árvores e os grandes mantos bordados dos três reis do Oriente brilhavam entre as sombras verdes, roxas e azuis.
Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. E sobre essa claridade a estrela parou.
E continuaram a caminhar.
Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.
E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.
Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os anjos. O seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra.
E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar. Era assim, à luz dos anjos, o Natal do Manuel.
- Ah – disse Joana -, aqui é como no presépio!
- Sim – disse o rei Baltasar -, aqui é como no presépio.
Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes.
( A Noite de Natal, Figueirinhas)

Fonte:

OS CONTOS TRADICIONAIS

ORIGEM: Antigamente, as pessoas, nos seus serões, contavam histórias irreais ou  verídicas, pois não tinham outra diversão. Geralmente essas histórias eram contadas à lareira.
O conto popular teve origem não nas camadas mais cultas da sociedade, mas sim no povo. Talvez venha daí o facto de não ser escrito, pois as pessoas, geralmente, não sabiam ler.
As pessoas mais velhas são os agentes de transmissão do conto. São elas que, normalmente, transmitem esses contos aos seus netos. Assim, o conto vai de geração em geração e muitas vezes é alterado, pois “Quem conta um conto acrescenta um ponto”.
O conto é pois, uma narrativa com raiz na tradição oral. O seu relato ocorria, em geral, num ambiente comunitário, ao serão.

CARACTERÍSTICAS: O conto prende-se pois, com o povo e com a população mais rural, menos «letrada».
A estrutura, basicamente, desenvolvia-se em cinco momentos: 
          . a  apresentação da situação; 
          . o acontecimento perturbador; 
          . os acontecimentos e peripécias passados pelo herói 
          . o desaparecimento do motivo perturbador 
          . a conclusão.

As personagens principais são, de um modo geral, anónimas e poucas, envolvendo classes sociais diferentes; reduzem-se muitas vezes a  três elementos: a heroína, o herói e  o elemento representativo do mal (fada, bruxa ou velha).

O espaço e o tempo são muito vagos ou quase nulos; são indefinidos e indeterminados.

O encantamento e a simbologia dos nomes e dos números impõem-se no evoluir das histórias (é constante a referência ao número três). Uma das características do conto é a presença do maravilhoso: é característico haver dragões, fadas, feiticeiras, bruxas...

Os contos também têm uma característica muito importante: a moralidade (que muitas vezes pode ser expressa em provérbio). Nela assistimos sempre ao triunfo do Bem sobre o Mal.
Os contos que, normalmente, são contados às crianças são muito importantes, pois têm uma dupla função, lúdica e didáctica, ou seja, elas podem divertir-se e aprender ao mesmo tempo. Destinavam-se, sobretudo, a passar uma mensagem moralizadora, mas também a divertir e entreter o núcleo familiar, os amigos e vizinhos.

EVOLUÇÃO: O conto passa a ser reconhecido literariamente como género narrativo bastante tardiamente. Mas já no séc. XVI, em França, Perraut reunira alguns contos tradicionais, passando-os às à escrita. 
No séc. XIX, os Irmãos Grimm, na Alemanha, ou Teófilo Braga e Almeida Garrett, em Portugal, fizeram o mesmo, publicando muitas histórias que até aí não tinham sido escritas. No entanto, mantém características de conto popular como, por exemplo, a curta extensão, o teor moralizante, a concentração do espaço e do tempo e o número reduzido de personagens.

Conto Popular - O que é o conto popular.

O que é um conto popular?

Também conhecido como conto tradicional, é um texto narrativo, geralmente curto, criado e enriquecido pela imaginação popular e que procura deleitar, entreter ou educar o ouvinte. A sua origem perdeu-se no tempo. Ninguém é dono e senhor dos contos populares. Por isso, cada povo e cada geração contam-nos à sua maneira, às vezes corrigindo e acrescentando um ou outro pormenor no enredo. Daí o provérbio: “Quem conta um conto acrescenta um ponto”.
Fontes:


sábado, 2 de novembro de 2013

Ficha sobre recursos expressivos- excertos tirados da obra "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar"


Ficha sobre recursos expressivos- excertos tirados da obra História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar


Sabendo que História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, de Luís Sepúlveda, se trata de uma obra cujas personagens são animais, o recurso expressivo dominante é, sem dúvida, a personificação. Descobre outros, associando os recursos no quadro a cada excerto retirado da obra, todos da primeira parte (atenção- um excerto pode conter mais que um recurso):


enumeração metáfora perífrase ironia
comparação assíndeto eufemismo adjetivação


1. “Cento e vinte corpos perfuraram a água como setas (…)” (I. 1)

2. “Saborosos arenques, Saborosos e gordos.” (I.1)

3. Seriam então umas mil gaivotas que, como uma nuvem cor de prata, iriam aumentando com a incorporação (…)” (I.1)

4. “O gato grande, preto e gordo olhava para ele com atenção, sentado no peitoril da janela, o seu lugar favorito.” (I.2)

5. “Que bolachas deliciosas, estaladiças e a saber a peixe!” (I.2)

6. “(…)ainda lhe mantinha sempre limpo o caixote de areia onde aliviava o corpo(…)”(I.2)

7. “O leite da mãe era morno e doce, mas ele queria provar uma daquelas cabeças de peixe que a gente do mercado dava aos gatos grandes.” (I.2)

8. “Mas Zorbas, que naquela altura era assim como uma bolinha de carvão, saiu do cesto.”(I.2)

9. “Quatro semanas para preguiçar pelos cadeirões, pelas camas, ou para ir até à varanda, trepar ao telhado, saltar de lá para os ramos do velho castanheiro e descer pelo tronco até ao pátio interior(…)” (I.2)

10. “(…)compreendeu que a maldição dos mares lhe obscurecia a visão.” (I. 3)

11. “Kengah, a gaivota de penas cor de prata, mergulhou várias vezes a cabeça, até que uns clarões lhe chegaram às pupilas cobertas de petróleo.” (I.3)
12. “Atiravam ao mar milhares de litros de uma substância espessa e pestilenta que era arrastada pelas ondas.” (I.3)

13. “Viu também alguns barcos movendo-se como diminutos objetos sobre um pano azul.”(I.3)

14. “Kengah compreendeu que as forças não lhe iam durar muito e, procurando um lugar onde descer, voou terra adentro, seguindo a serpenteante linha verde do Elba.” (I.3)

15. “Kengah olhou para o céu, agradeceu a todos os bons ventos que a haviam acompanhado e, justamente ao exalar o último suspiro, um pequeno ovo branco com pintinhas azuis rolou (…)” (I.4)

16. “Zorbas desceu rapidamente pelo tronco do castanheiro, atravessou o pátio interior a toda a pressa para evitar ser visto por uns cães vagabundos, saiu para a rua, assegurou-se de que não vinha nenhum automóvel, atravessou-a e correu na direção do Cuneo, um restaurante italiano do porto.” (I.5)

17. “─ Ai compadre! Está a ver o que eu estou a ver? Ai que gordinho tão lindo ─ miou um.” (I.5)

18. “Estendeu lentamente a pata da frente, pôs de fora uma garra tão comprida como um fósforo e aproximou-a da cara de um dos provocadores.” (I.5)

19. “Nas três casas, unidas por passadiços e escadas estreitas, havia perto de um milhão de objetos, entre os quais há a destacar os seguintes: 7200chapéus de abas flexíveis para que o vento os não levasse; 160 rodas de lemes(…); barcos enjoados de tantas voltas que deram ao mundo; 245 lanternas (…)” (I.6)

20. “Colonello, Sabetudo e Zorbas observaram o corpo sem vida da gaivota (…) (I. 8)

Proposta de correção
1. comparação

2. adjetivação

3. comparação

4. adjetivação

5. adjetivação

6. eufemismo

7. adjetivação

8. comparação

9. assíndeto

10. metáfora

11. perífrase

12. adjetivação
13. comparação

14. assíndeto. metáfora

15. assíndeto, eufemismo

16. assíndeto

17. ironia

18. assindeto, comparação

19. enumeração

20. eufemismo

Fonte:
 
 

"O Cavaleiro da Dinamarca" de Sophia de Mello Breyner Andresen

O Cavaleiro da dinamarca - Lê e estuda a obra.


O Cavaleiro da Dinamarca é uma obra fantástica que te apresenta o percurso de um Cavaleiro que decide fazer uma peregrinação à terra santa.



Naquele tempo as viagens eram longas, perigosas e difíceis, e ir da Dinamarca à Palestina era uma grande aventura. Quem partia poucas notícias podia mandar e, muitas vezes, não voltava...



In O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen
Será que vai conseguir regressar a casa e cumprir a promessa que fez?
http://www.slideshare.net/GiovaniOliveira/o-cavaleiro-da-dinamarca



http://www.slideshare.net/luiscontente/cavaleiro-da-dinamarca-15466686

Cavaleiro da Dinamarca

http://www.slideshare.net/mdaniela/o-cavaleiro-da-dinamarca-roteiro-de-uma-viagem-7-ano

O Cavaleiro Da Dinamarca   Roteiro De Uma Viagem



Fontes:
http://cavaleirodinamarca.webs.com/

http://viagensliterarias.wordpress.com/2009/12/13/o-cavaleiro-da-dinamarca-de-sophia-de-m-b-andersen-lp-7%c2%baano/

http://oprofessortiraduvidas.blogs.sapo.pt/274116.html

http://www.colegioportugal.pt/cavaleiro_da_dinamarca_7.htm

http://textosintegrais.blogspot.pt/2013/02/teste-de-7-ano-cavaleiro-da-dinamarca.html


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Novo Mundo-Um filme bom para o 6º e 8º anos

O Novo Mundo
O Novo Mundo
  • Lançamento
     (2h15min)
  • Dirigido por
  • Com
  • Género
  • Nacionalidade
  • Sinopse

    No início do século XVII poucas mudanças haviam ocorrido na América do Norte. Apesar de ter sido descoberto em 1492, o continente continuava a ser uma grande área de mata primitiva, aparentemente interminável, habitada por várias tribos indígenas.
  •  Em 1607, três embarcações inglesas, financiadas pela London Virgínia Company, partem ao longo do oceano atlântico rumo a novos territórios, na esperança de encontrarem os lendários tesouros e ouro.
  • Ao desembarcarem em James River, na Virgínia, estabelecem a colónia de Jamestown. A maioria dos 103 colonos do grupo original, eram aristocratas mal preparados para as condicionantes do Novo Mundo, pelo que as condições de vida na colónia se degradam ao ritmo que se desvanece a esperança de encontrar ouro...
  • A história começa em Abril de 1607 quando as três pequenas naus, que levavam 103 homens, partem da Inglaterra para este mundo pouco conhecido, com o objectivo de estabelecer nele raízes culturais, religiosas e económicas.
  • No navio Susan Constant, o principal da frota, está John Smith (Colin Farrell), um homem de 27 anos que foi condenado à forca por insubordinação e está agora acorrentado  na parte de baixo do convés. Quando o navio aporta John é libertado pelo capitão Christopher Newport (Christopher Plummer), que considera que seus talentos podem ser úteis para que a tripulação sobreviva neste mundo desconhecido.
  • Os navios ingleses aportam, sem saber, no meio de um império indígena sofisticado, que é governado por Powhatan (August Schellenberg). Os ingleses enfrentam dificuldades para se adaptar a este novo mundo, o que faz com que John busque ajuda junto dos homens da tribo local. É quando ele encontra uma jovem impulsiva e voluntariosa, apelidada pela família e amigos de Pocahontas (Q'Orianka Kilcher), que é também a filha preferida de Powhatan. Em pouco tempo surge a paixão entre John Smith e Pocahontas, o que faz com que eles tenham que enfrentar a resistência de ambos os lados.
  • Vê o filme:
  • Fontes: